Monteiro Lobato entra em domínio público e terá versão até da Turma da Mônica

Publicado em 19/01/2019 às 16h03

FONTE: FOLHA DE S.PAULO

 

Monteiro Lobato entra em domínio público e terá versão até da Turma da Mônica

Novos livros se dividem entre o texto integral e adaptações que suavizam passagens tidas como racistas

Ilustração de Fido Nesti para o livro Ilustração de Fido Nesti para o livro "A Reforma da Natureza", de Monteiro Lobato (ed. FTD) Divulgação
 
Bruno Molinero
SÃO PAULO
 

Quem entrar nas livrarias nos próximos meses vai precisar tomar cuidado para não ser soterrado por uma avalanche de Emílias, Narizinhos, Pedrinhos, Donas Bentas e Viscondes.

Desde 1º de janeiro, a obra de Monteiro Lobato está em domínio público. Sem obrigação de pagar direitos aos herdeiros, editoras preparam um grande número de edições —com a primeira fornada saindo neste mês e no próximo. 

Estão livres contos, cartas, o único romance (“O Presidente Negro”) e, é claro, a galinha dos ovos de ouro: os livros infantis, que giram em torno do Sítio do Picapau Amarelo.

Mauricio de Sousa está entre os que foram nessa onda. Em “Narizinho Arrebitado”, com lançamento confirmado para fevereiro pela editora Girassol, Emília ganha os contornos da Mônica e se torna também baixinha, gorducha e dentuça. Já Narizinho vira a comilona Magali.

Ainda é possível ver Pedrinho se tornar o Cebolinha e Visconde de Sabugosa como o Louco —como os dois não fazem parte da história, eles aparecem em um glossário de personagens no fim do livro, que é a primeira aventura infantil de Lobato, publicada em 1920, mais tarde incorporada a “Reinações de Narizinho”.

Mas outros também resolveram surfar o domínio público. No Brasil, a liberação começa no dia 1º de janeiro seguinte aos 70 anos da morte do autor. Lobato morreu em 4 de julho de 1948, o que fez sua obra receber passe livre no primeiro dia de 2019.

Como, por regra geral, o direito autoral é determinado pelo país de origem, também está aberta a possibilidade de traduções fora do país sem que haja pagamento ou negociação com os herdeiros.

A expectativa é que ocorra por aqui um fenômeno parecido ao do Pequeno Príncipe em 2015, quando os escritos de Saint-Exupéry entraram em domínio público e o personagem estampou dezenas de títulos, passando por livros para colorir e uma versão da Turma da Mônica, com o Cebolinha no papel principal.

“Sabemos que agora Lobato vai ganhar todo tipo de edição. Das mais cuidadosas às que não vão ter tanto apreço”, projeta Mauro Palermo, diretor editorial da Globo Livros.

A editora deteve os direitos e a exclusividade das histórias de 2007 até o ano passado. Antes, elas pertenciam à Brasiliense. “Evidente que vamos ter perda de receita, mas não vamos abandonar o projeto.”

Para este ano, a Globo prevê lançar “A Chave do Tamanho” e “O Picapau Amarelo”, ambos pelo selo Biblioteca Azul, que aposta em livros de capa dura, texto integral e recuperação das ilustrações das primeiras edições, feitas quando o escritor ainda estava vivo. 

Clássicos como “Reinações de Narizinho”, “Caçadas de Pedrinho” e “Memórias de Emília” já saíram pelo selo. “Percebemos que existe muito adulto em busca de produtos mais bem acabados”, diz Palermo.

Mas a maior parte das editoras está colocando suas fichas no público infantil.

A FTD, por exemplo, pretende lançar coleções indicadas a faixas etárias específicas, que vão de 3 a 11 anos. O processo de edição e seleção começou em setembro de 2017.

Entre as obras escolhidas, estão “O Museu da Emília”, que terá o texto adaptado para linguagem de teatro, e “Reinações de Narizinho”, que será fatiado em 11 volumes.

“Como as narrativas podem ser lidas de maneira independente, a opção permite livros com quantidade de páginas adequadas ao leitor”, acredita Isabel Lopes Coelho, gerente editorial de literatura da FTD.

A empresa também prepara “O Pinguim que Andou de Bonde”, baseado em cartas escritas por Lobato em 1915, que terá ilustrações de Nelson Cruz, vencedor do Jabuti.

“Reinações de Narizinho” e “O Picapau Amarelo” também são os lançamentos de janeiro da Autêntica. Em fevereiro, é a vez de “A Chave do Tamanho” chegar às livrarias. Os títulos ganharam apresentação de Maria Valéria Rezende.

Já a Companhia das Letrinhas também prepara uma coleção com reedição de boa parte da obra do escritor. A organização ficou a cargo de Marisa Lajolo, ex-curadora do Jabuti e uma das principais especialistas em Lobato do país.

Em fevereiro, será lançado (mais um, não perca as contas) “Reinações de Narizinho”. Até o fim do ano, devem ganhar novas edições e ilustrações “O Saci” e “O Minotauro”.

Mas o diferencial vem no início de março: uma biografia juvenil preparada a quatro mãos por Lajolo e Lilia Moritz Schwarcz, que apresenta a vida e a obra de Lobato.

“É uma narrativa em primeira pessoa, como se ele revisitasse a sua vida —por mais que a Emília tente roubar a cena. Mesmo assim, não fugimos das polêmicas, como o racismo e a briga com o modernismo”, conta Schwarcz.

Nos últimos anos, a obra de Lobato tem sido apontada como racista. No caso do Sítio do Picapau Amarelo, pela maneira como Tia Nastácia é tratada, chamada de “negra beiçuda” e de “macaca de carvão”.

Nesse sentido, “Caçadas de Pedrinho” é um dos livros considerados mais tóxicos. Além do racismo, há ainda a caçada de uma onça. Tanto que, em 2010, o Conselho Nacional de Educação chegou a sugerir que a história não fosse distribuída em escolas públicas. O título praticamente não está sendo reeditado, mesmo com o domínio público.

“Lobato é um ser humano e, como tal, tem suas contradições. Omitir polêmicas é colocar essas questões embaixo do tapete. Eu prefiro gerar desconfortos e abrir debates”, afirma Schwarcz. A Companhia das Letrinhas manterá os textos integrais.

Mas outras editoras preferiram fazer adaptações. É o caso da Moderna, que encomendou uma versão de “Reinações de Narizinho” a Pedro Bandeira. O título do autor de “A Droga da Obediência” deve sair no primeiro semestre.

É o caso também da Girassol. O livro ilustrado por Mauricio de Sousa é adaptado por Regina Zilberman, também especialista em Lobato. 

Nele, Dona Benta já não é chamada de velha, por exemplo. Agora, é uma “senhora”. “Por que deixar o leitor constrangido? É possível mudar partes sem alterar o sentido”, opina Zilberman.

Mas essas reciclagens têm imites. Segundo Ivana Crivelli, advogada especialista em direito autoral, não é permitido violar a obra ou alterar a personalidade dos personagens. Nesses casos, os herdeiros podem acionar a Justiça.

Mesmo com as barreiras legais, editores concordam que o domínio público vai mudar o jeito como vemos o Sítio do Picapau Amarelo atualmente. 

“Teremos diferentes Lobatos em circulação. Novas organizações, mais ilustrações, outras interpretações. E essa concorrência pode ter outro efeito —baratear o preço do livro”, acredita Marisa Lajolo.

Mas só se for a longo prazo. As novas edições chegarão com preço de mercado. Partem de cerca de R$ 30 e podem ultrapassar os R$ 60.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/01/monteiro-lobato-entra-em-dominio-publico-e-tera-versao-ate-da-turma-da-monica.shtml 

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