Na eleição das fake news, Fato ou Fake faz mais de 700 checagens durante a campanha

Publicado em 07/10/2018 às 11h39

FONTE: O GLOBO

 

#FATO OU #FAKE

Fato ou Fake Foto: Reprodução

Na eleição das fake news, Fato ou Fake faz mais de 700 checagens durante a campanha

Foram 462 declarações de presidenciáveis checadas: 97 eram “fake”, 220 eram “fato” e 145 ganharam o selo “não é bem assim”

POR JEFERSON RIBEIRO /MIGUEL CABALLERO

O diagnóstico é compartilhado por especialistas, autoridades, partidos políticos e candidatos: o Brasil vive a eleição das fake news. Se é difícil mensurar o alcance que as informações falsas tiveram e seu impacto no resultado das urnas, tampouco há consenso sobre quais antídotos usar para combater conteúdo duvidoso em larga escala.

Durante toda a campanha, o projeto “Fato ou Fake”, que reuniu checagens de informações difundidas nas redes feitas por jornalistas do Grupo Globo, conferiu a veracidade de mais de 703 publicações, somadas as 653 verificações de frases de candidatos ditas durante debates ou atos de campanha e as 50 notícias falsas desmentidas.

Foram 462 declarações de presidenciáveis checadas: 97 eram “fake”, 220 eram “fato” e 145 ganharam o selo “não é bem assim”, quando apresentavam inconsistências. Os candidatos a governos estaduais tiveram 191 falas verificadas, das quais 32 não se confirmaram.

Os 50 boatos desmentidos pelo projeto “Fato ou Fake” desde o início da campanha são mais do que o dobro das 23 ações que tramitaram no Tribunal Superior Eleitoral(TSE) relacionadas a fake news no período, número informado pelo tribunal na sexta-feira. O índice mostra a dificuldade de se conter o alastramento dos boatos, que muitas vezes não chegam ao conhecimento sequer daqueles que são vítimas. Se em redes sociais como o Facebook e o Twitter nem sempre é fácil identificar de onde surgiu um boato, em aplicativos de trocas de mensagens como o WhatsApp esse rastreamento é quase impossível.

ENXUGANDO GELO

A velocidade e o alcance do WhatsApp, que em 2017 já tinha 120 milhões de usuários no Brasil, foram o principal campo para difusão de informações imprecisas. O aplicativo virou peça-chave tanto para as campanhas fazerem sua propaganda oficial chegar mais rápido a mais gente, quanto para apoiadores que se dedicam a criar e espalhar fake news. Ocultar a identidade no aplicativo é fácil e relativamente barato, explica o advogado Fernando Neisser, autor do livro “Crimes e mentira na política”:

— Com um aplicativo de VPN (rede privada virtual), qualquer um se conecta à internet com uma identidade de outro país. Obter um grande banco de dados também não é difícil. Um cadastro de mais de 100 milhões de contatos de WhatsApp no Brasil é vendido na internet por cerca de R$ 10 mil — diz ele. — Existem casos de funcionários de empresas de telefonia que têm esses grandes cadastros e os vendem. Com computadores programados para mandar mensagens, não é difícil fazer disparar de oito a dez milhões por dia.

Neisser advoga nos processos relacionados à área digital para o candidato do MDB ao governo de São Paulo, Paulo Skaf. Ele explica como as próprias campanhas têm dificuldade de lidar com o problema:

— Levamos à Justiça o que chega até nós, mas a maioria não é sequer reportada às vítimas. É enxugar gelo.

A velocidade do avanço da tecnologia não consegue ser acompanhada pelas leis e por quem as aplica. Professor de Direito da Mackeinze, Diogo Rais avalia que ainda há muito a se aprender para que o combate à desinformação seja eficaz:

— Fiz palestras para juízes e advogados e muitos sequer sabiam o que é uma URL (o endereço de um página na internet). Temos dois mundos específicos e que não tinham se juntado ainda no Brasil: o dos especialistas em direito eleitoral e o pessoal da tecnologia.

No TSE, o Conselho Consultivo sobre Internet e Eleições ficou mais de quatro meses sem se reunir e só terá um novo encontro na próxima semana. O tribunal cogitou criar um portal para reunir as checagens de notícias feitas pela imprensa e também dar um papel mais ativo à Polícia Federal e à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) — duas ideias que foram abandonadas.

Para o vice-procurador-geral eleitoral, Humberto Medeiros, as instituições se prepararam para combater os casos maiores. Já as notícias falsas que circulam no celular dos eleitores, segundo ele, fazem parte do aprendizado do eleitorado:

— Há a sujeira pequena, que o eleitor controla; a mediana, que os partidos e os políticos cuidam; e as coisas mais graves, que as instituições tinham que cuidar. Às vezes, é melhor ignorar porque ajuda a neutralizar a mentira.

O estímulo à desconfiança nas urnas eletrônicas

Reprodução de post de Carlos Bolsonaro - Reprodução

Um dos boatos mas difundidos durante o período de campanha atingia o próprio processo eleitoral: a falsa informação de que o TSE havia cedido o código de segurança do sistema das urnas eletrônicas para uma empresa venezuelana especializada em proteção de sistemas eletrônicos.

A informação chegou a ser compartilhada no Twitter pelo vereador Carlos Bolsonaro, que depois apagou sua publicação. O TSE divulgou nota negando a informação, e os ministro têm dado reiteradas declarações de que são infundadas quaisquer suspeitas sobre a violabilidade do sistema.

Apelação moral

Mensagem atribuída a Fernando Haddad (PT) é falsa - Reprodução

Temas morais tradicionalmente costumam pautar as eleições no Brasil. Esta publicação, que teve alta circulação no Facebook, inventou uma declaração de Fernando Haddad (PT) defendendo que a criança, ao completar cinco anos, deveria passar a ser propriedade do Estado. Esta mensagem motivou a primeira ação da campanha petista no Tribunal Superior Eleitoral. O ministro Carlos Horbach concedeu liminar determinando ao Facebook a retirada do ar da imagem. A origem da publicação foi identificada como do perfil “Cacilda”.

O falso áudio de Bolsonaro

Falso áudio de Bolsonaro em hospital viralizou nas redes - Reprodução

Uma gravação que imitava o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, gritando com o filho Eduardo numa discussão que teria acontecido durante sua internação no Hospital Albert Einstein viralizou nos aplicativos de celular. No áudio falso, a voz que fingia ser de Bolsonaro se referia de forma ofensiva a uma enfermeira e duvidada de uma eventual vitória na eleição. Este caso provocou um “contra-ataque”, também na forma de fake news. O humorista e colunista do GLOBO Marcelo Adnet foi acusado de ser o autor da imitação que prejudicava Bolsonaro, o que também era falso.

A ameaça da perda do emprego

Reprodução de mensagem fake - Reprodução

A mensagem, que correu em alta velocidade pelo WhatsApp na última semana da eleição dizia que várias das maiores empresas atuantes no país — como Coca-Cola, Ambev, Ford e Natura, entre outras — demitiriam em massa “se a esquerda vencer” a eleição. A mentira buscava pegar carona em declaração públicas de empresários como Luciano Hang, da Havan, que ameaçou fechar postos de trabalho. Todas as empresas citadas na mensagem foram consultadas pelo projeto “Fato ou Fake” e negaram qualquer intenção de demitir empregados por causa do resultado eleitoral.

Um engenhoso conceito de ‘voto parcial’

Reprodução de mensagem fake - Reprodução

A pouca informação de muitos brasileiros sobre as regras eleitorais torna o tema um terreno fértil para a publicação de notícias falsas. A mensagem acima inventava o conceito de “voto parcial”, que seria aquele no qual o eleitor escolhe apenas um candidato para presidente, e votaria em branco ou nulo nos outros cargos. A consequência seria a anulação completa do voto, inclusive o dado na disputa presidencial. A informação é, evidentemente, falsa. Como em outros casos, não havia um candidato como vítima do boato, mas o próprio processo eleitoral.

As falsas desistências no último dia de campanha

Mensagem fake sobre João Amoêdo - Reprodução

As últimas 24 horas anteriores à votação foram férteis em boatos de desistências e apoios a adversários que não existiram. O projeto Fato ou Fake desmentiu duas mensagens que circularam durante o sábado por WhatsApp. A primeira dizia que o candidato à Presidência do Novo, João Amoêdo, havia desistido em favor de Jair Bolsonaro (PSL). O próprio Amoêdo gravou um áudio desmentindo a história para ser difundido pelo aplicativo. Também ontem circulava a informação de que Fernando Haddad (PT) havia gravado um vídeo “jogando a toalha” e reconhecendo derrota na eleição.

https://oglobo.globo.com/brasil/na-eleicao-das-fake-news-fato-ou-fake-faz-mais-de-700-checagens-durante-campanha-23135263 

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